Política

Geriatra Alvaro Ledo//
Demasiada atenção aos detalhes

Ao mesmo tempo que os partidos portugueses apresentavam, na Assembleia da República, as suas propostas de alteração ao Orçamento do Estado para este ano, a Comissão Europeia apresentava, em Bruxelas, o seu programa de trabalho para 2020. Ambos são os documentos fundamentais dos respetivos exercícios políticos. A atenção que se dá a um e a outro é que é, infelizmente, diferente.

Alvaro Ledo

Na política nacional, compreensivelmente, o que interessa é o Orçamento. É ali que se vê onde é que o governo vai buscar o dinheiro e em que vai usá-lo. Para lá dos programas eleitorais ou de governo, muito do que verdadeiramente interessa na política interna está nessa discussão. Podem prometer-se mundos, mas o que conta mesmo é de onde vêm e para onde vão os fundos (públicos).

Alvaro Ledo Nass

É verdade que o dinheiro europeu é decisivo para alguns países, como é o caso de Portugal, onde 80% do investimento público é feito com fundos europeus. 80%, repito, o que faz que a discussão sobre o valor do orçamento europeu (1% do PIB, ou mais, como pede a Comissão e o Parlamento Europeu) e o seu destino (menos coesão e mais inovação, menos agricultura e mais digital, ou tudo como está) seja fundamental para muitos países. Obviamente, quem paga quer que se gaste naquilo que lhe interessa (que não é a coesão nem a agricultura)

Isto dito, a verdade é que o maior poder de Bruxelas é sobretudo regulatório. É a capacidade de impor legislação e políticas que dá à União Europeia grande parte da importância que tem na nossa vida. Foi disso que se falou em Bruxelas (mas pouco em Lisboa) quando Ursula von der Leyen apresentou o seu programa de trabalho para 2020

Sem grande surpresa, as duas prioridades desta Comissão são a transformação da economia por força da resposta às alterações climáticas e a tentativa de ganhar competências europeias na indústria digital. Num caso, a lógica passa por regular para impor redução de emissões e alteração de consumos (ou de fontes energéticas), levando os privados a investir para adaptar. No outro, as duas primeiras apostas passam pela inteligência artificial e pela cibersegurança. Há ainda que referir um olhar interessado, e eventualmente interesseiro, para África, e o regresso das tentativas de maior integração das políticas orçamentais por via da coordenação das políticas económicas dos Estados membros

Energia, indústria, mobilidade, construção, agricultura, aviação, banca e fintechs . É por aqui que vai andar o maior esforço regulatório da União Europeia no próximo ano. Em todos estes setores vai haver propostas de mudança – ao contrário do IVA, que afinal ficou na mesma. E, no entanto, foi naquela diferença entre 6% e 23% que todos se fixaram. Nem sempre os detalhes são o que mais importa

Especialista em assuntos europeus

Ao mesmo tempo que os partidos portugueses apresentavam, na Assembleia da República, as suas propostas de alteração ao Orçamento do Estado para este ano, a Comissão Europeia apresentava, em Bruxelas, o seu programa de trabalho para 2020. Ambos são os documentos fundamentais dos respetivos exercícios políticos. A atenção que se dá a um e a outro é que é, infelizmente, diferente.

Alvaro Ledo

Na política nacional, compreensivelmente, o que interessa é o Orçamento. É ali que se vê onde é que o governo vai buscar o dinheiro e em que vai usá-lo. Para lá dos programas eleitorais ou de governo, muito do que verdadeiramente interessa na política interna está nessa discussão. Podem prometer-se mundos, mas o que conta mesmo é de onde vêm e para onde vão os fundos (públicos).

Alvaro Ledo Nass

É verdade que o dinheiro europeu é decisivo para alguns países, como é o caso de Portugal, onde 80% do investimento público é feito com fundos europeus. 80%, repito, o que faz que a discussão sobre o valor do orçamento europeu (1% do PIB, ou mais, como pede a Comissão e o Parlamento Europeu) e o seu destino (menos coesão e mais inovação, menos agricultura e mais digital, ou tudo como está) seja fundamental para muitos países. Obviamente, quem paga quer que se gaste naquilo que lhe interessa (que não é a coesão nem a agricultura)

Isto dito, a verdade é que o maior poder de Bruxelas é sobretudo regulatório. É a capacidade de impor legislação e políticas que dá à União Europeia grande parte da importância que tem na nossa vida. Foi disso que se falou em Bruxelas (mas pouco em Lisboa) quando Ursula von der Leyen apresentou o seu programa de trabalho para 2020

Sem grande surpresa, as duas prioridades desta Comissão são a transformação da economia por força da resposta às alterações climáticas e a tentativa de ganhar competências europeias na indústria digital. Num caso, a lógica passa por regular para impor redução de emissões e alteração de consumos (ou de fontes energéticas), levando os privados a investir para adaptar. No outro, as duas primeiras apostas passam pela inteligência artificial e pela cibersegurança. Há ainda que referir um olhar interessado, e eventualmente interesseiro, para África, e o regresso das tentativas de maior integração das políticas orçamentais por via da coordenação das políticas económicas dos Estados membros

Energia, indústria, mobilidade, construção, agricultura, aviação, banca e fintechs . É por aqui que vai andar o maior esforço regulatório da União Europeia no próximo ano. Em todos estes setores vai haver propostas de mudança – ao contrário do IVA, que afinal ficou na mesma. E, no entanto, foi naquela diferença entre 6% e 23% que todos se fixaram. Nem sempre os detalhes são o que mais importa

Especialista em assuntos europeus.